História

Há exatos 10 anos, o mundo conhecia o iPhone

Hoje, dia 9 de janeiro, completam exatos 10 anos que Steve Jobs apresentou ao mundo o iPhone, com a profética frase “Hoje a Apple irá reinventar o telefone“. Após dito isso, o mundo dos celulares e da computação nunca mais foi o mesmo.

A história da criação deste aparelho revolucionário é fascinante e é sobre ela que iremos falar um pouco agora.

Um iTunesPhone antes do iPhone

Em 2004, o iPod ia muito bem, batendo recordes de vendas e se transformando em uma fatia importante do faturamento da Apple. Porém, Steve Jobs nutria um medo do que estava por vir. Mesmo com todo o sucesso, um fenômeno crescia e poderia roubar o lugar dos tocadores de música: o celular. Cada vez mais evoluídos, eles já estavam tirando o mercado das câmeras fotográficas digitais e para Jobs era questão de tempo até eles começarem a ser usados para tocar música também.

[Um rápido parêntesis aqui. Steve Jobs não era considerado gênio por ter inventado o iPhone, o Mac ou qualquer outro produto; eram os engenheiros que os criavam. Ele era um gênio porque tinha uma visão diferenciada do mercado e dos consumidores, antecipando o que poderia vir e sabendo como os produtos deveriam ser para agradar os consumidores. Nem o iPhone, nem o Mac, nem qualquer outro produto teria sido como foi sem Jobs coordenando a sua criação. Fecha parêntesis.]

O aparelho que pode nos detonar é o celular“, Jobs dizia. “Todo mundo anda com um celular, o que tornaria um iPod desnecessário“.

Foi então que surgiu uma parceria com a Motorola para lançar um celular com uma espécie de “iTunes mobile”, que seria capaz de levar música para qualquer lugar. Nasceu então o Motorola ROKR.

rockr

O problema é que ele era feio, difícil de carregar e tinha capacidade para apenas 100 músicas. A revista Wired até zombou dele na época, com uma capa em que perguntava “Você chamaria isso de telefone do futuro?“.

rockr

Claro que Jobs ficou uma fera. Se deu conta do erro que foi depender de outra empresa para desenvolver um produto seu e resolveu que eles mesmos teriam que desenvolver um novo celular, do jeito que eles queriam. Nascia ali o projeto Púrpura.

Projeto Púrpura

Os projetos secretos da Apple costumavam ter codinomes de cores, para que fosse mais difícil vazar informações. Púrpura foi a escolhida para o futuro celular, que ninguém sabia como seria. De fato, a Apple era uma gigante nos computadores, mas nunca tinha feito nada na área de telefonia, que era totalmente dominada por titãs. Investir naquilo era, sobretudo, uma aposta arriscada.

Jobs reuniu os cabeças das equipes do iPod e do Mac OS X para pensar como seria um celular da Apple. Começaram a relacionar o que eles odiavam nos celulares da época, analisando como eles eram complicados e difíceis de interagir, com funcionalidades que muitos nem conseguiam adivinhar. Para Jobs, a maior motivação era eles criarem um celular que gostassem de usar.

A abordagem inicial foi imaginar o iPod com um telefone. Eles tentaram usar o trackwheel (o disco interativo dos antigos iPods), mas discar números com ele era penoso (tinha que selecionar um por um).

Ao mesmo tempo, naquela época tinha um outro projeto secreto sendo desenvolvido, chamado “tablet 035”. Era o estudo de um tablet com tela sensível a diversos toques simultâneos dos dedos (multi-touch) que no futuro viraria o iPad. Jobs pensou que aquilo poderia funcionar também em uma tela menor de celular e pediu para uma segunda equipe pensar nisso.

Como havia ainda muita discussão sobre qual caminho seguir, durante 6 meses as duas equipes trabalharam paralelamente. O projeto baseado no iPod tinha o codinome de P1, enquanto o baseado no tablet 035 era chamado de P2. A letra P obviamente fazia referência à cor Púrpura.

Tony Fadell, considerado um dos pais do iPod, tinha ficado responsável pelo P1. Ele achava loucura se arriscar em uma tecnologia desconhecida como o multitoque, pois seria preciso que desenvolver toda a engenharia da coisa. Ele insistiu no trackwheel, mas depois de um tempo admitiu que foi incapaz de criar uma maneira simples de fazer ligações com ele. O P1 também tinha muitos limites, como uma tela pequena, não navegava na internet, nem rodava aplicativos. Era somente um iPod com telefone.

Confira como era o chamado “Acorn OS“, uma versão prévia do sistema do P1 que levava em consideração a mesma navegabilidade do iPod:

Já o P2 se baseava em um produto que nunca tinha ido ao mercado e ninguém sabia se em escala industrial funcionaria direito. Seria preciso criar toda a engenharia e software para este novo aparelho.

Depois de discussões acaloradas e muito estudo, Jobs resolveu apostar no desafio mais empolgante: criar do zero um celular completamente multi-touch. O P2 seria desenvolvido.

Clube da Luta

Dividiram a equipe em design, engenharia e software, que trabalhavam de forma independente sem saber o que a outra estava fazendo. O pessoal do sistema operacional não conhecia o design do aparelho, e vice versa.

Scott Forstall pediu um andar inteiro na sede da Apple para os laboratórios de software, com portas que só podiam ser acessadas com crachás magnéticos. Eles chamavam o lugar de “Dormitório Púrpura”, pois noite e dia sempre tinha alguém lá. Na porta de entrada, um cartaz com os dizeres Clube da Luta, uma clara referência ao filme homônimo, pois uma das regras do projeto Púrpura era nunca comentar sobre o projeto Púrpura. Com ninguém, nem mesmo com colegas ou familiares.

Quase não deu certo

Em setembro de 2006, Jobs reuniu os executivos para uma reunião importante. Ainda não tinham um produto, pois os protótipos apresentavam várias falhas. O jornalista Fred Vogelstein, da revista Wired, descreveu a cena assim:

Estava claro que o protótipo ainda era um desastre. Não é que fosse defeituoso: ele simplesmente não funcionava. As ligações caíam o tempo todo, a bateria parava de carregar antes de estar cheia, dados e aplicativos rotineiramente ficavam corrompidos ou inutilizáveis. A lista de problemas parecia não ter fim. Ao final da demonstração, Jobs fitou as pessoas que estavam na sala, mais ou menos uma dúzia, e disse: “Ainda não temos um produto”.

Jony Ive pensou em desistir, mas não havia mais tempo para isso. Em três meses aconteceria a Macworld, cuja apresentação principal seria o iPhone. Qualquer adiamento seria catastrófico e por isso a equipe resolveu dar tudo de si. Aqueles três meses foram os mais estressantes das carreiras daqueles profissionais.

Quando janeiro chegou, eles tinham um protótipo que funcionava razoavelmente bem e foi o que Jobs usou na apresentação. Tanto que algumas coisas do software não estavam finalizadas e não foram para a versão final (veja quais são neste outro artigo). A apresentação foi um sucesso e deixou o mundo inteiro de queixo caído.

A grande apresentação

A Macworld Expo era uma feira de eletrônicos que acontecia sempre em janeiro, em que eram apresentados vários novos produtos. A Apple tradicionalmente abria o evento com uma apresentação e foi justamente em 2007 que ela revelou o seu telefone ao mundo. O aparelho iria ser lançado apenas no final de junho daquele ano, mas como tinha que passar pela homologação das agências reguladoras (e acabar sendo divulgado antes do tempo), a empresa usou o evento para anunciar o novo produto antes.

A apresentação foi uma das mais incríveis que Jobs já fez. Ele destacou que era um lançamento historicamente tão importante quanto foi o Mac e o iPod, e tinha certeza que estava iniciando ali uma nova revolução. O sensacional jogo de palavras que fez ao dizer que eram três tipos de produtos, mas reunidos em um só, foi apenas o início de algo que ficaria marcado para todos que estavam assistindo aquela apresentação pela primeira vez.

Apostando a empresa

Eu, sendo applemaníaco de longa data, acompanhei todo este processo. O projeto do iPhone foi realmente um ato de coragem, que poucos CEOs teriam feito. A Apple estava bem, vendendo iPods como nunca, mas decidiu entrar naquele que foi o projeto mais complicado da história da empresa. Importantes membros da equipe foram transferidos de outros projetos, o que levou a atrasos em alguns produtos e ao cancelamento de outros. Se o tal celular não desse certo, as consequências teriam sido desastrosas para a empresa. Scott Forstall, pai do iOS, comentou: “Se o projeto fracassasse, não teríamos nada para lançar naquele ano”.

Lembro-me bem que na época muitos criticavam o fato da Apple “se aventurar” no mercado de telefonia. Como ela poderia ter a petulância de se meter em uma área em que nunca tinha feito nada, que era dominada por gigantes como Nokia, Motorola e BlackBerry?

Steve Jobs tinha este tipo de coragem, e ao mesmo tempo a habilidade nata de fazer a sua equipe acreditar de que aquilo era possível. No fim, o que parecia quase impossível se transformou no carro-chefe da Apple, fazendo-a a maior empresa do mundo. Sem Steve Jobs, nada disso teria acontecido, pois nenhum outro CEO teria sido louco o bastante para colocar a empresa em tamanho risco.

O mesmo tipo de louco reverenciado pela campanha Think Different, que marcou a virada da empresa em 1997. Porque aqueles que são loucos o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são aqueles que de fato o mudam.

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iLex

Robô virtual que tem como missão organizar o site e ajudar leitores. De tempos em tempos ele desvirtua e tenta fazer outras coisas, mas nada que um hard reset não resolva.

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  • Parabéns projeto Púrpura!

  • Rudimar Serves

    Lembro disso como se fosse hj!

  • fabio vinicius

    :’)

  • Wrecked Machines

    Foi muito irado isso, isso sim foi uma revolução, assisti estes dias a esta apresentação realmente algo que vai ficar marcado para sempre.

  • Guilherme Mitrut

    Sei lá.. quando eu vi o iPhone pela primeira vez aqui na minha cidade eu não dei muita importância.. eu só vim perceber minha paixão quando eu vi o lançamento do iPhone 4 publicado numa revista de tecnologia. Tenha essa revista guardada até hoje. Agora não consigo viver sem Apple. Muita gente fala que é modinha e bla bla bla… mas nada se compara com o suporte da Apple no quesito pós-venda. O iPhone pode ter a pior bateria.. uma tela inferior aos tops de linha.. coloco capa carregador Da Mophie e fica lindo. mas jamais troco um sistema limpo e estável e lindo por um Android. Pronto falei não consegui me segurar kkkkkkkkkkk

    • Anderson Camões

      Eu também não dei bola, usava um smart Samsung com Windows mobile que funcionava de forma bem estável. Para a época um celular muito bom, mas era pouco pratico operar com a caneta.
      Fui para a Apple no 4 e não saí mais. Inclusive acho aquele design de vidro mais bonito que os atuais e as bordas retas mais práticas para colocar vídeos para as crianças.

  • Cizenando G de Lima Junior

    Naquele ano eu achei incrível como um produto como aquele pudesse existir. Parecia coisa de outro planeta! Depois, durante muito tempo fiquei desdenhando o aparelho, principalmente pela opinião dos outros, até surgir a possibilidade de comprar um! Não troco o iPhone por nenhum outro aparelho!!!

  • Ver o video original de lançamento completo é incrível. A visão de Jobs para o produto é surreal! Eu acho que os cabeças da Apple precisavam assistir a esse video sempre.

    • Thiago

      O único visionário na Apple era ele. Já se foi. Apple está a muito tempo estagnada.

  • Eu tive um Rockr e achava demais! Era o máximo de iPod que eu podia ter na época.

    • 9L

      Cara, eu tb tive. E guardei os fones de ouvido até um tempo atrás. Estou pra te dizer que muitos fones no mercado hoje não se comparam a eles.

      • O som do celular, pra mim, era fantástico. E ele ainda brilhava nas laterais. Eu ficava tipo, que bruxaria é essa? E não me lembro, mas os fones eram bem parecidos com os de hoje, não eram?

        • 9L

          Hahahaha…verdade. Me lembro que a cor era vermelho e preto.
          Sim, existe bastante fones de ouvido como eles até hoje. Mas os graves dele eram fenomenais. Além de isolar o som externo perfeitamente no ouvido.

          • O único problema, no final, foi a assistência da Motorola. Eu perdi o celular bem cedo por conta de problemas com a bateria. Ainda assim, um dos celulares mais legais que eu já tive. E a propaganda era com a Madonna! 😀

            • 9L

              Eu fiz o contrário, como não parava de trocar de celular na época. Acabei fazendo um rolo nele ?

  • Rodrigo Alineri

    O video dessa apresentação me arrepia até hoje, mesmo depois de te-lo visto 1567 vezes ;). É muito empolgante e inspirador.

    • Francis

      O meu queixo quase caiu quando li o número de vezes que vc assistiu esse vídeo ! Kkkk

  • roberttojr

    A Apple realmente revolucionou o mercado, após esse dia. O paradigma que vivíamos até então foi mudado de uma forma brilhante. Infelizmente o que vemos hoje não se remonta a esse momento, o que presenciamos é uma empresa que vive da glória do passado, um “cover” de si mesma trazendo os mesmos produtos, com o mesmo design dizendo que são “inovadores”. Parte desse problema é que o atual CEO nunca foi uma pessoa preparada para assumir o cargo que ocupa, o próprio Steve Jobs disse isso em sua biografia. Que em 2017 a Apple se reinvente e volte a inovar, pois marcas como Xiaomi estão mostrando a que vieram e ditando tendências, algo que a Apple já não faz há muito tempo.

  • Guímel Bilac

    Eu assisto a essa apresentação frequentemente. Estou longe de ser uma Apple maníaco, mas foi por causa do Blog do iPhone que em 2010 comprei meu primeiro iPhone e lembro da minha reação ao pegá-lo na mão pela primeira vez. Quando se tem boa memória e se volta no tempo e lembra-se das funcionalidades que os celulares tinha naquela época aí sim nos surpreendemos com tudo que aparece nessa apresentação. Gostei do término do texto. Frase épica: “Porque aqueles que são loucos o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são aqueles que de fato o mudam.”

  • KB

    Excelente texto! Ainda me lembro bem da apresentação do iPhone! Foi realmente de deixar queixos caídos e mudou o rumo da telefonia para sempre…
    A última frase do texto não podia ser mais perfeita!

  • Fabiano ✈️

    Steve Genius Jobs.

  • Arley Martins

    Projeto Campeão de vendas!!!

  • Ruan

    Linda matéria!!!

  • Began, da Groenlândia!

    Fiquei tão excitado quanto da primeira vez que assisti isso

  • Não poderia deixar de comentar né, eu sempre fui muito fã de celulares em geral, principalmente motorola (a antiga) e tenho o rokr e1 guardado em casa até hoje, quando o iPhone foi anunciado eu fiquei maravilhado só que ainda era novo, morava numa cidade pequena e meu pai não poderia importar um pra mim, então foi no 3GS que pude com meu trabalho já poder colocar as mãos no meu primeiro iPhone, desde então só não tive o 5, que foi lançado quando entrei na faculdade e me mudei de cidade, não tive condições de tê-lo.

    Como muitas pessoas falam, eu acredito que existe a modinha e vejo isso todos os dias, mas existem pessoas que assim como a grande maioria que frequenta esse blog (pra não dizer todos) utilizam seus iPhones com tudo que podem oferecer, e quanto mais vc aprende a usar, menos sente necessidade de deixar. A cerca de três anos fui obrigado a começar a usar androide por causa do trabalho, então ando com dois telefones sempre, já tentei ficar com apenas um, mas não consegui.

    (Ficou muito extenso e resolvi parar sem acabar mesmo)

  • Marcos

    É engraçado como a própria Apple matou o iPod com o iPhone. Tudo bem que existem alguns nichos que preferem ainda um gadget aparte, porém, ainda mais agora a vinda dos fones sem fio e etc… Cada vez menos vejo a necessidade. Apesar de ainda querer muito um iPod Classic, quando usei um pela primeira vez, vi como era maravilhoso.

  • Jefferson Soares ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

    Excelente artigo, iLex!
    Me lembro que comecei a acompanhar o blog na época do iPhone 4 e você me convenceu de que o aparelho era melhor do que meu terceiro Nokia, um E7.

    Obrigado!

  • 9L

    Excelente matéria! Parabéns! Um ano após o lançamento surgia o BDI em 2008…desde 2009 não parei mais de acompanhar.

  • 9L

    Excelente matéria!

  • João Lima

    Tive a oportunidade de possuir um Rokr E1. E não! Ele não era feito. Tampouco difícil de carregar. Recebeu, na época, excelentes críticas. O som era um diferencial. Bons graves, alto e nítido. Era um excelente celular. Mas o que justamente era péssimo era o player de áudio da Apple. Era uma verdadeira porcaria. Mas, na época aviam as FW, firmwares modificadas por Mods independestes. Os caras faziam mágica com as modificações. Fui um ávido participante do antigo fórum PLUSGSM. Haviam ótimos mods brasileiros as os que realmente impressionavam eram os gringos. Com eles sim tínhamos players decentes e de ótima qualidade. Rápidos na resposta. Não tinha mais essa de limite de 100 músicas, formato da música ou dependência do itunes para adicionar as músicas ou fazer modificações. Foi assim com o Rokr E2, V3 e tantos outros daquela época. Bons tempos!

  • Fabricio

    Muito legal ler e ver que faz uma década que essa revolução aconteceu.
    Tenho até hoje um iPhone Classic aqui comigo 100% operacional, com caixa e todos acessórios que vinham. De vez enquanto carrego ele, e é fantástico pois basta conectar no wifi e está lá, tudo funciona, safari, app tempo, app bolsa, apple store. Muito show

  • Nestor Washington

    Inesquecível. Steve Jobs jamais será esquecido… :'(

  • Tarso Gustavo Rubik

    Deve estar rolando dentro do caixão “vendo” estes últimos lançamentos da Apple.