Opinião

Para Jony Ive, processo criativo é mais importante que resultado final do produto

Jony Ive deu uma entrevista para o seminário “The Future is Now“, organizado pela Norman Foster Foundation. No evento, o principal chefe de design da Apple afirmou que, para ele, o processo criativo em si é muito mais significante e importante que o resultado final de suas criações.

Há alguns anos, isto está bem óbvio nos produtos da Apple.

Antes de começar, um disclaimer: eu sou um grande entusiasta de design e briguei com Jony Ive em 2013, a partir do iOS 7. Desde então, discordo de diversas decisões tomadas por ele e que resultaram em produtos da Apple. Também ressalvo que este é um mero artigo de opinião, e você tem todo o direito de não concordar com algo que for escrito aqui. 😉

O evento aconteceu no final de maio deste ano, e a entrevistadora foi a jornalista Gillian Tett, do Financial Times.

Ao ser perguntado qual produto da Apple ele tem mais orgulho, Ive respondeu que o produto final é o menos importante.

O que mais me interessa é o processo. Trabalhar com um grupo de pessoas diferentes, que representam variados tipos de habilidades. Acho que o processo de colaborar com elas de maneira efetiva é o que me orgulha. E isso parece muito mais significativo que uma única coisa, muito mais que a solução final.

Ou seja, não importa para que raios serve uma capa de silicone cheia de furos que enche a traseira do aparelho de poeira e arranha o aparelho, o importante foi o processo criativo que eles tiveram entre eles.

Claro que, como fã de design, eu peguei meio mal com esta entrevista. Não pelo que ele disse, mas por ela confirmar uma impressão que tenho já algum tempo: de que Jony Ive está cansado, mas não pode deixar a Apple por ter se tornado importante demais para ela.

Não me interpretem mal, o Jony foi fundamental para o reerguimento da Apple nos últimos 20 anos. Sua sintonia com Steve Jobs rendeu produtos revolucionários como o iMac, o iPod e o iPhone, além de vários outros destaques, como o MacBook Air. Foram todos geniais. Porém, com a morte de Jobs, parece que toda a responsabilidade pelo futuro dos produtos da empresa pesaram nas costas dele, que passou a ter um poder de decisão quase total lá dentro. A diferença é que, sem alguém determinado e com uma visão fora da curva como Jobs para dizer “sim e não” para os projetos, o peso da responsabilidade pode se tornar insustentável.

Voltando a ressaltar suas próprias palavras, o resultado final é o que menos importa para Jony Ive. Não interessa se a capa bateria ficará com uma corcunda, ou se o novo Magic Mouse não poderá ser usado enquanto estiver carregando (sem opção de trocar as pilhas de forma rápida). Não importa se não há utilidade nenhuma para o usuário em se criar uma capa furada para o iPhone 5c, pois o que valeu foi “a experiência do processo criativo, com pessoas incríveis“. O usuário final fica em segundo plano. Ou em terceiro, logo depois do dinheiro.

Eu sempre acreditei que um bom design é aquele que resolve um problema do usuário, de forma elegante, simples, estética e com inteligência. Infelizmente, nos últimos tempos a Apple vem lançando produtos que nem sempre se encaixam nestes quesitos.

Jony Ive está cansado. E enquanto outro designer bom não despontar, ficaremos presos às suas “viagens criativas“…

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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