Editorial

Casa de ferreiro, espeto de pau?

O mundo inteiro está divulgando que o primeiro desbloqueio do iPhone 3G foi feito por brasileiros. E é o mundo inteiro mesmo: há artigos na Itália, França, Inglaterra, Estados Unidos, por tudo quanto é canto. E alguns sites são até bem conceituados, não podemos nem dizer que trata-se de simples desinformação. Até mesmo o Engadget enviou uma equipe para o Brasil especialmente para conferir de perto a façanha.

Mas apesar da notoriedade internacional, a notícia foi muito mal aceita por boa parte dos usuários brasileiros. Por que? O que faz com que os autores da descoberta sejam menosprezados em seu próprio país?

Vamos analisar os acontecimentos para tentar explicar o fenômeno.

Primeiro, a grande desconfiança que os brasileiros têm de soluções milagrosas, resultado do crescente número de golpes e falcatruas vistas diariamente nos jornais e na televisão. Por ser um povo que por tradição quer sempre levar vantagem em tudo, temos o medo constante de sermos enganados.

Segundo, o modo como foi anunciado: uma super exposição na mídia tem suas vantagens, mas também suas consequências, e ser famoso demais tem seu preço. Assim como você recebe muitos elogios, em contraponto está exposto à muitas críticas. E à brincadeiras também, pois o brasileiro nunca perde a oportunidade de fazer piada de si mesmo.

Terceiro: a comunidade hacker.
O “desbloqueio brasileiro” não foi um desbloqueio e sim uma forma de fazer funcionar artificialmente o telefone. Mas aí alguém pode dizer: “Para o consumidor, não é o que importa?“. Sim, sem sombra de dúvida. Quem gasta um dinheirão em um iPhone 3G não quer saber se aquela técnica que o permite ativá-lo é um desbloqueio real ou falso, o importante é sair da loja com ele funcionando, certo?

Certo. Mas então não diga que é um desbloqueio, caso contrário deverá suportar as reações daqueles que procuram maneiras de desbloquear o iPhone sem cobrar um centavo por isso, pelo simples prazer de ajudar os usuários. Fazer marketing em cima de um pseudo desbloqueio e ganhar dinheiro com isso é muito mal visto entre a comunidade. Ainda mais que ainda nem é uma solução definitiva, pois a “qualidade da conexão ainda é instável, oscilando bastante“, segundo o jornal Folha de São Paulo.

Uma empresa que quer parecer séria não pode dizer que foi a primeira a encontrar uma solução que nem está pronta ainda. É o clássico “tem, mas tá em falta“. O Dev Team, que mostrou ter desbloqueado já na sexta dia 11 um iPhone 2.0, não liberou até hoje sua ferramenta, pois faz questão de deixá-la 100% estável para o uso. Isso é seriedade.

Quarto: técnicas questionáveis de marketing.
Apesar de aparentemente ter dado resultado, patrocinar blogs para provocar artigos sobre a empresa (os chamados “blogs de aluguel”) é uma atitude repudiada por toda a blogosfera. Ainda mais que estes patrocínios tiveram início alguns dias antes da liberação oficial do firmware 2.0, como se tudo tivesse sido minuciosamente orquestrado com antecedência. Não é de se desconfiar?

Não quero aqui acusar, nem chamar ninguém de picareta. Apenas estou analisando o porquê de toda essa repercussão negativa no Brasil. O Blog do iPhone está sendo um dos únicos lugares nessa imensa internet onde podemos ler algo diferente sobre o assunto, o que me deixa feliz de ser um dos colaboradores do site, pois ele é o espaço ideal para se colocar esse tipo de questão.

A grande verdade é que todo esse pessoal que está hoje contra essa empresa, na realidade não é e nunca seria o público alvo dela. São pessoas que participam de fóruns e blogs, geralmente com um nível de informação mais elevado e que nunca pagariam por um desbloqueio, pois sabem como fazê-lo de graça. Quem paga é porque realmente não se sente capaz de desbloquear sozinho e esses, posso apostar, estão fazendo outras coisas nesse momento do que ficar lendo todas essas notícias.

E você, o que acha disso tudo?

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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