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Carta aberta do FBI tenta defender seu lado da história contra a Apple

A briga entre Apple e FBI já está tomando ares de novela, com novos acontecimentos a cada dois dias. Como o prazo dado pela justiça para que a Apple cumpra o pedido do FBI está chegando ao fim, resta saber se estamos nos últimos capítulos ou se ainda há muita história para ser contada.

Neste domingo, o diretor do FBI, James Comey, publicou uma carta aberta, explicando as razões deles insistirem tanto no caso contra a Apple, assim como se aproveitando da dor das famílias das vítimas para reforçar a munição contra a maçã.

Na sexta-feira, um executivo da Apple (que não se identificou) teve uma conversa telefônica com alguns jornalistas, explicando as tentativas da Apple em ajudar as autoridades no caso de San Bernardino. Disse que uma das soluções era fornecer ao FBI o backup do iCloud, que contém dados, mensagens, endereços e lista das ligações feitas e recebidas. Enfim, tudo o que as investigações precisam.

O problema é que o último backup feito tinha sido no dia 19 de outubro, dois meses antes da tragédia. O FBI queria da Apple um backup bem mais recente, para obter maiores informações relativas ao caso.

O Backup do iCloud, quando ativado pelo proprietário, ocorre de forma automática toda vez que o iPhone está conectado a uma rede Wi-Fi e ligado na corrente elétrica. Leia mais sobre isso neste link.

A mudança da senha

Em janeiro, quando foi procurada pelos federais, a Apple percebeu o problema e sugeriu uma solução: tentar levar o aparelho bloqueado até uma rede Wi-Fi conhecida (como o escritório onde trabalhava o terrorista, ou sua casa) para que conseguisse se conectar na internet e possivelmente fazer o backup mais atual, de forma automática. Porém, isso ficou impossível de ser feito, pois constataram que a senha do iCloud tinha sido alterada horas depois dos ataques. Com isso, não tem como o iPhone bloqueado se conectar à nuvem.

Mas quem mudou essa senha? O dono do iPhone.

O detalhe é que o iPhone era apenas um aparelho de trabalho do terrorista Syed Rizwan Farook, um cidadão americano empregado do Condado de San Bernardino. O aparelho na verdade era do Condado (que é uma divisão administrativa do Estado nos EUA), e por isso eles conseguiram mudar a senha do iCloud, na tentativa de obter informações presentes na nuvem, inclusive um backup do aparelho. Porém, ao mudarem a senha, estavam definitivamente decretando o fim da comunicação do iPhone investigado com a nuvem, o que impossibilita qualquer tentativa da Apple de ter acesso ao aparelho.

Geralmente as empresas que fornecem iPhones e iPads aos seus funcionários, fazem com que suas equipes de TI tenham controle total sobre os aparelhos, e a própria Apple dá instrumentos para empresas fazerem isso. Mas por alguma razão, o Condado não implementou nenhum sistema do tipo, o que facilitaria muito o trabalho de investigação sem precisar obrigar a Apple a criar nenhuma ferramenta especial.

O cuidado em não deixar rastros

Não ter um backup desde outubro pode ser sinal de um cuidado que o próprio terrorista teve para não deixar rastros que pudessem ser recuperados depois.

Além do iPhone de trabalho, Farrok usava também um outro celular pessoal, que foi destruído por ele pouco antes do início do atentado (a polícia inclusive encontrou dois celulares destruídos perto da região onde o atentado aconteceu). A polícia encontrou um computador na casa dos terroristas, mas sem o disco rígido, o que é uma amostra clara de que eles tentaram apagar todos os vestígios possíveis do que fizeram nos últimos tempos. Com isso em mente, parece óbvio que o iPhone não deve ter nenhuma informação relevante que possa ajudar no caso. Não teria sentido nenhum eles deixarem vestígios no iPhone de trabalho quando planejaram em todos os detalhes maneiras de não serem rastreados.

A resposta do FBI

O diretor do FBI usou o mesmo artifício de Tim Cook para expor seu lado da história, escrevendo uma carta aberta. Ele diz que não estão tentando abrir nenhum precedente, apenas querem conseguir ter acesso físico a um iPhone específico, que pode conter informações importantes que não estão nos backups analisados. Ele também acusa a Apple de estar fazendo marketing em cima de uma tragédia.

Nossa opinião

Já discutimos bastante aqui sobre isso. Criar uma maneira de invadir um único iPhone é uma brecha que permitiria que se abrisse outros iPhones também. Dizer que é para “um caso especial” abre sim precedentes para que, no futuro, outros acontecimentos sejam chamados de “casos especiais” e obrigar a Apple a abrir o dispositivo de quem quer que seja. Na administração Bush presenciamos a mentira criada pelo governo norte-americano sobre armas de destruição em massa que justificaram o ataque ao Iraque, armas estas que nunca existiram. O governo pode sempre usar do pretexto do terrorismo e da segurança nacional para fazer o que quiser.

Também vimos o que o governo dos Estados Unidos é capaz de fazer na espionagem de outros países, quando Edward Snowden revelou diversos fatos. Até mesmo o Governo do Brasil e empresas brasileiras foram investigadas, para beneficiar empresas americanas e europeias. A questão está longe de ser apenas a “proteção de nossas fotos pessoais“. A proteção de dados tem um âmbito muito maior do que a periferia de nosso próprio umbigo.

O FBI está apelando para a família das vítimas e muitas já se manifestaram a favor do governo. É claro. Sofrer uma violenta dor é algo que abala profundamente nosso emocional. Infelizmente é algo natural do ser humano passar a ser a favor da tortura, da pena de morte e de justiça com as próprias mãos quando se tem um parente próximo ou um conhecido como vítima de um crime bárbaro e violento. Mas não significa que seja a forma correta de agir.

Esta história não é nova. O FBI (assim como outros governos) estão há tempos tentando fazer com que a Apple e outras fabricantes não criem métodos encriptados de comunicação que impeçam que sejam interceptadas. Há anos. Este caso de San Bernardino é apenas mais um capítulo dessa história, na tentativa de retomarem o poder de espionagem que sempre quiseram ter.

O que se está em discussão não é apenas se a Apple deve ou não ser obrigada a fornecer acesso a um único iPhone, mas sim se devemos ou não permitir que o governo tenha tanto poder assim sobre todo mundo, tentando usar apenas uma desculpa de um caso isolado.

Para saber mais sobre o caso da luta entre Apple e FBI, confira este link com outros artigos sobre o tema.

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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