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Há 20 anos, a Apple comprava a NeXT e seu caminho de volta ao sucesso

Esta semana, completou-se 20 anos de um marco importantíssimo para o futuro da Apple, que mostrou-se um verdadeiro divisor de águas. Foi no dia 20 de dezembro de 1996 que a maçã anunciou a aquisição da NeXT, empresa criada por Steve Jobs logo depois de sua saída da própria Apple. A despesa foi algo em torno de 400 milhões de dólares; o retorno econômico, incluindo Jobs, todos nós sabemos que foi inestimável.

O recomeço de Steve Jobs

Em 1985, praticamente expulso da empresa que tinha fundado com Steve Wozniak, Jobs resolveu recomeçar tudo de novo, fundando uma nova empresa de computadores, a NeXT. Ela incluía em seu quadro vários ex-funcionários da Apple, como Susan Kare, a designer que criou os ícones do Macintosh (e que nós entrevistamos para a Revista iThing em 2014). Ao contrário do que quis fazer em Cupertino, Jobs direcionou a empresa para criar um conjunto de hardware/software com o melhor da tecnologia, a fim de oferecer uma “experiência computacional coesa”, tendo como público-alvo o mercado corporativo e o ensino superior e pesquisa.

Steve Jobs e a NeXT

Em 1988, finalmente é lançado o NeXT Computer, uma poderosa workstation encerrada em um elegante gabinete negro, primeiro lançamento da empresa. Revelado em um luxuoso evento de gala apenas para convidados, o computador foi apresentado como “a nova geração de computadores para educação”.

Steve Jobs e a NeXT

De fato, o sistema operacional NeXTSTEP, coração da estação de trabalho, apresentava diversas inovações que influenciariam de maneira definitiva os dispositivos que usamos hoje. Estruturado sobre o “kernel” Mach e o BSD, o sistema inspirado no Unix oferecia ferramentas orientadas a objetos muito poderosos para pesquisadores e desenvolvedores, que incluíam um ambiente de programação baseado na linguagem Objective-C. Além disso, o NeXTSTEP tinha uma interface baseadas em janelas diferenciadas, baseada no Display PostScript, o famoso padrão “PDF” da Adobe.

Steve Jobs e a NeXT

O resultado do empreendimento, entretanto, foi restrito. Com um preço inicial de 6.500 dólares (cerca de US$ 13 mil, nos números de hoje), o NeXT Computer e seu sucessor NeXTcube não foram exatamente um sucesso de vendas. Estima-se que a NeXT conseguiu vender cerca 50.000 unidades e a divisão de hardware acabou sendo vendida para a Canon em 1993.

O desespero da Apple

Em completa crise financeira, a Apple começava o ano de 1996 sem muitas perspectivas de escapar da falência. Uma linha confusa de produtos e fechando todos os trimestres fiscais no vermelho, os diretores da empresa ainda tentavam seus últimos esforços para fazer a empresa durar o máximo possível, visto que ninguém acreditava que ela ainda poderia se salvar completamente.

Uma das ideias era procurar um novo sistema operacional para o Mac, pois o System 7 já estava defasado e há muito ultrapassado pelo Windows 95. E um dos mais cotados era o chamado BeOS, um sistema leve e elegante produzido pela empresa Be, do ex-diretor da Apple Jean-Louis Gassée.

Enquanto isso, o sistema NeXTSTEP continuava a receber críticas positivas dos usuários e da indústria, e a grande IBM já havia licenciado o sistema operacional para rodar em seus equipamentos. Isso chamou a atenção da Apple na época, que começou a cogitar o sistema da empresa de Jobs também como uma alternativa.

O recente filme Steve Jobs|, com  o ator Michael Fassbender, relata este momento em que Jobs percebe o interesse da Apple e prepara-se para oferecer a ela o seu sistema. A NeXT já não produzia nenhum computador e dependia que esta negociação desse certo para continuar viva. Se não tivesse havido negociação, muito provavelmente hoje não existiria mais Apple e nem Steve Jobs teria conseguido se reerguer.

A decisão que mudou a história

Tudo foi uma questão de sorte. Jean-Louis Gassée pediu valores exorbitantes para a maçã poder utilizar seu sistema, o que abriu uma brecha para que logo em seguida Jobs negociasse a venda da NeXT e todo o seu valioso capital intelectual, incluindo ele mesmo. Com isso, a Apple tinha um poderoso sistema operacional (que mudou o nome para Mac OS X, o qual conhecemos até hoje e foi base inclusive para o iOS) e de quebra o seu fundador criativo de volta.

O resto da história já sabemos. Steve assumiu o comando depois de pouco tempo e fez uma limpa na empresa, cortando linhas inteiras de produtos e simplificando o máximo possível para deixar mais claro para o consumidor o que a Apple tinha para oferecer. Ele despediu muita gente que não pensava como ele, e contratou pessoas em que ele confiava, como Tim Cook, Phil Schiller e Scott Forstall (esse ele trouxe da NeXT). O jovem Jony Ive já trabalhava na Apple, mas logo entrou na mesma frequência de Jobs e começou a criar produtos que fizeram história.

E é incrível imaginar como uma simples compra de uma empresa em dificuldades mudou toda a história da Apple (e até mesmo do atual mundo tecnológico). O que Jobs fez foi algo inacreditável, e torcemos para que um dia se faça um filme só sobre isso.

Por isso que a última terça-feira foi um dia tão significante para todos nós. Como será que seriam os computadores e os celulares hoje, se aquele dia não tivesse acontecido? É uma pergunta que nos faremos para o resto da vida.

* Texto com colaboração de Alessandro Salvatori

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Marco Andrei

Marco Andrei Kichalowsky é applemaníaco e trabalha com produtos Apple desde 1993. Foi presidente do Brasil Apple Clube durante 10 anos e colaborador da saudosa Macmania e sua herdeira MAC+ até o fim da revista, em 2015.

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