Opinião

O quanto a falta de carregador na caixa do celular realmente muda no meio ambiente?

Eleita a Polêmica do Ano em nosso artigo de Retrospectiva 2020, a decisão de retirar o carregador das caixas do iPhone deu muito o que falar.

Afinal, era um costume do mercado que vinha de décadas, e a Apple o mudou como quem arranca rapidamente um Band-Aid de uma ferida ainda não cicatrizada.

A justificativa dada pela maçã foi a da questão ambiental: menos acessórios, menos lixo eletrônico, melhor o transporte.

Mas até que ponto este tipo de decisão realmente influencia no meio ambiente? Será que resulta em uma melhora efetiva ou é apenas uma jogada de marketing para lucrar mais?

Neste artigo, pretendo levantar todos os pontos da questão e tentar mostrar que é um erro achar que a mudança é inútil só porque não tem resultado imediato.



Vejo muita gente comentando que esta atitude da Apple é apenas para gerar mais lucro e que este “papinho de meio ambiente” serve apenas para “enganar os trouxas”.

Será mesmo?

É bem verdade que a maçã parece ter usado este argumento como uma “desculpa” para equilibrar os gastos com um modelo de fabricação mais cara que os dos anos anteriores, o que acabou denegrindo um tema tão importante quanto é o da educação ambiental. Colocamos nosso ponto de vista quanto a isso em um outro artigo aqui no BDI.

Porém, mesmo que a forma como ela fez isso tenha sido brusca e equivocada, de fato deveremos ter bons avanços nos próximos anos em relação à mudança de comportamento dos usuários.


Hábito enraizado

Erra quem analisa a situação somente considerando o curto prazo.

Já li gente argumentando: “Se ela me obriga a comprar um carregador separado, o lixo ambiental é o mesmo”.

Porém, este tipo de argumento só leva em consideração nosso engessado hábito atual. Durante anos, fomos acostumados a ter um carregador para cada dispositivo. Então, se não mudarmos nosso mindset, nossa maneira de pensar, sempre acharemos estranho comprarmos um celular sem uma fonte na caixa.

Isso é tão forte em nós que provavelmente haverá pessoas que, ao ler este texto aqui, acharão absurdo ele defender que seja possível vender um celular sem carregador. “Como vou carregá-lo? Terei que comprar outro celular quando a bateria acabar?”.

Mas o fato é que existe sim um outro tipo de comportamento que pode ser adotado, diferente daquele de acumular carregadores em casa, só para o caso de “precisar”.


Antes sem do que mal acompanhado

A verdade é que o carregador que a Apple oferecia na caixa era bem defasado e ineficiente. Os usuários mais experientes já se recusavam a usá-lo, apelando para outros mais potentes e performáticos, comprados separadamente.

O carregador que vinha antes (com exceção dos modelos Pro do iPhone 11) fornecia apenas 5W, o que fazia o carregamento do aparelho demorar mais que o dobro de tempo.

Uma das novidades do iPhone 8 foi o carregamento rápido, capaz de recarregar a bateria de 0 a 50% em 30 minutos. Mas o usuário precisaria comprar um carregador à parte, porque o que vinha na caixa não era o suficiente. Estamos falando de 2017.

Então, na prática quem queria o melhor do seu aparelho já não usava o carregador nativo desde então. Comprava um extra, bem mais potente, para atender todos os modelos que tivesse.

Como ele não vai junto com o celular caso seja revendido, servirá para alimentar os próximos modelos que venham a ser comprados, com a mesma ótima performance.

Ou seja, na prática, muitos já estavam agindo para reduzir o lixo eletrônico, possuindo um carregador extra para todos os seus celulares.

Para estes usuários, a atual decisão da Apple em não vender mais o iPhone com o carregador não irá mudar em nada no cotidiano. Novos aparelhos continuarão sendo recarregados, de forma rápida, pelo mesmo adaptador de tomada comprado anteriormente.

Mas este tipo de comportamento demora para ser mudado. E muitas vezes é preciso um empurrão para as pessoas saírem da inércia da qual se acostumam por anos.


A difícil mudança de atitude

Não é nada fácil mudar um costume de décadas, que começou com os primeiros celulares.

Nos primórdios da era mobile, cada modelo possuía seu próprio conector e os celulares vinham com a “fonte” integrada ao cabo. Isso gerava um lixo eletrônico tremendo, pois dificilmente o conector de uma marca funcionava em outra.

Aí veio o iPhone, que foi um (se não o primeiro) a oferecer um cabo com terminação USB padrão, junto com um carregador de parede separado. Com isso, era possível carregar o aparelho também no computador ou em qualquer outro dispositivo com USB.

Isso permitiria que a Apple eliminasse com o tempo o carregador de parede, o que não aconteceu até 2020. Ela preferiu continuar fornecendo um adaptador de baixa performance na caixa, para não desagradar o cliente.

A maçã tinha tudo para fazer a transição de forma suave e gradativa, mas acabou escolhendo a maneira agressiva que gerou a polêmica nos últimos meses.

A Xiaomi mostrou como a mudança poderia ter sido bem mais tranquila: ofereceu a opção ao consumidor de comprar o celular com ou sem o carregador, pelo mesmo preço.

Mas, mudar hábitos não é algo fácil. Segundo a empresa, apenas pouco mais de 5% dos que compraram o modelo aceitaram não receber o carregador. A quase totalidade não abriu mão de pedir o acessório extra ao qual “tinha direito”. O ser humano é assim mesmo.

Isso fez com que a atitude da Xiaomi fosse em vão? Claro que não! Faz parte da transição e é uma maneira suave de fazer seus clientes entenderem que os tempos estão mudando e que no futuro o celular virá definitivamente sem o carregador.

Isso é bem mais sútil e psicológico do que o que a Apple fez com o iPhone 12.


Os reais resultados demoram a acontecer

A decisão de retirar o carregador da caixa não irá reduzir imediatamente o impacto ambiental. Os resultados significantes deverão ainda demorar um pouco.

Em um primeiro momento, é óbvio que aqueles que precisarem comprar um novo carregador compatível com o cabo USB-C que vem nos aparelhos acabarão gerando a mesma quantidade de lixo eletrônico. Mas isso acontece apenas nesta fase de transição.

Com o passar dos anos, as pessoas terão que se habituar a adotarem um ou alguns poucos carregadores fixos para o uso de eletrônicos na casa, que não serão trocados com a compra de novos celulares.

Neste ponto, diversos carregadores extras deixarão de ser fabricados ao longo dos anos, gerando um concreto benefício para o meio ambiente.

Ao mesmo tempo, com a redução das embalagens dos aparelhos, a quantidade deles no armazenamento reduzirá o número de transportes, influenciando também na emissão de gás carbônico na atmosfera. Multiplique isso não por 12 meses, mas por 10 anos, e você verá o benefício real que a atitude tem para o meio ambiente.

Considere também que outras marcas agora deverão fazer o mesmo. O CEO da Xiaomi revelou que a empresa já cogitava retirar o carregador da caixa há 5 anos, mas teve medo da reação dos clientes. Agora, com o “aval da Apple”, o mercado se sente mais a vontade de repetir as atitudes da maçã, que será a que levará todas as porradas pela atitude.

A culpa sempre é da Apple.


É mais lógico ter um carregador separado

Para quem se permitir parar para refletir sobriamente sobre o assunto, faz muito mais sentido considerar o carregador como um acessório independente do celular.

É claro que inicialmente dói no bolso. É óbvio que as empresas acabam lucrando mais quando elas não baixam o valor dos aparelhos. Mas tirando a parte financeira, a lógica do carregador separado faz todo o sentido.

A situação força no consumidor um hábito que traz vantagens e que muitos usuários mais experientes já descobriram antes.

Cada um poderá comprar o carregador que achar melhor, que forneça a melhor performance para o seu dispositivo e sem ficar preso aos limites do que vinha na caixa.

E se for revender o celular, esse carregador não precisa ir junto, alimentando os próximos que virão.

Eu mesmo já faço isso desde 2017, quando comprei um carregador USB-C de 30W para carregar de forma rápida o iPhone, e desde então nunca mais tirei das caixas dos iPhones que comprava o ridículo carregador 5W que vinha nos aparelhos. Até hoje este carregador USB-C é o ponto de recarga da casa, alimentando iPhones e iPads da família.

No meu caso, a atitude da Apple não altera em nada os meus hábitos. Nada. E você, o que está esperando para adotar uma postura bem mais racional no carregamento dos seus dispositivos eletrônicos?



O erro de muitos é analisar esta situação da retirada do carregador considerando um limitado intervalo de tempo.

Se você imaginar o que essa atitude da Apple terá mudado em março de 2021, provavelmente fará sua mente acreditar que retirar o carregador da caixa não serviu para nada. Mas se, em vez disso, se permitir imaginar as consequências daqui 10 ou 20 anos, a sua conclusão poderá ser bem diferente.

Acredito que as próximas gerações irão reagir com incredulidade quando alguém lhes contar que, em 2020, as pessoas reclamavam que os celulares não vinham com carregador na caixa.

Afinal, dirão elas, que lógica tem vir um carregador a mais cada vez que se compra um celular, se era possível manter um único, mais performático, que podia durar anos?


Fonte
Conteúdo original © Blog do iPhone

Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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