Durante anos, a Apple construiu a reputação da App Store como uma loja de aplicativos altamente controlada e segura. Mas uma nova investigação mostra que nem sempre esse sistema consegue impedir golpes criativos.
Desta vez, o problema envolve dezenas de aplicativos que parecem inofensivos, mas escondem plataformas de apostas quando são abertos no Brasil.
Segundo uma investigação publicada pelo 9to5Mac, mais de 60 aplicativos disponíveis na App Store brasileira foram criados para enganar tanto os usuários quanto o próprio processo de revisão da Apple.
Aplicativos mudam completamente quando são usados no Brasil
À primeira vista, esses apps parecem jogos simples ou utilitários comuns. Muitos aparecem em categorias como Previsão do Tempo, Viagens e Navegação.
Os ícones costumam mostrar animais desenhados em estilo gerado por inteligência artificial, enquanto as descrições apresentam funções totalmente inocentes.
O comportamento muda quando o aplicativo detecta que está sendo executado a partir de um endereço de internet brasileiro.
Em vez do conteúdo mostrado na App Store, o usuário passa a visualizar uma plataforma de apostas online. Em outros países, os mesmos aplicativos continuam funcionando normalmente, exibindo exatamente aquilo que foi aprovado pela Apple.
O Blog do iPhone comprovou a existência de alguns destes aplicativos, que mostram justamente este comportamento, dando acesso total a sites de apostas que não possuem registro para atuarem em território brasileiro.

Essa técnica é conhecida como “jacket app“, ou aplicativo de fachada. Ela consiste em esconder a verdadeira função do software durante a análise da loja e ativar o conteúdo real somente em determinadas regiões ou sob condições específicas.
O levantamento identificou diversas semelhanças entre os aplicativos suspeitos.
A maioria foi publicada por contas de desenvolvedor que possuem apenas um único aplicativo. Muitos dos desenvolvedores utilizam nomes comuns em países asiáticos, especialmente no Vietnã.
Além disso, os aplicativos compartilham políticas de privacidade muito parecidas, quase não recebem atualizações e possuem tamanho semelhante, normalmente em torno de 15 MB.
Outro detalhe chamou ainda mais atenção.
Os investigadores encontraram um repositório público no GitHub com instruções detalhadas para criar exatamente esse tipo de aplicativo utilizando ferramentas de inteligência artificial.
Documento ensina como enganar a revisão da App Store
O material encontrado explica passo a passo como desenvolver aplicativos simples apenas para servir de disfarce.
As instruções recomendam criar entre três e cinco telas funcionais, escolher nomes que pareçam atraentes, utilizar ícones com animais e implementar um sistema remoto capaz de decidir qual conteúdo será exibido para cada usuário.
O documento também orienta que cada aplicativo utilize códigos internos diferentes para dificultar que a Apple identifique que todos pertencem ao mesmo grupo.
Na prática, isso permite que o aplicativo mostre um jogo simples para os revisores da Apple e, posteriormente, ative uma plataforma de apostas para usuários brasileiros.
O algoritmo da própria Apple acabou revelando a rede
Um dos aspectos mais curiosos da investigação é que o próprio sistema de recomendações da App Store acabou conectando esses aplicativos.
Na seção “Você também pode gostar”, vários desses apps sugerem outros aplicativos igualmente suspeitos com muito mais frequência do que aplicativos legítimos.
Isso indica que, embora o processo de revisão não tenha identificado o esquema, os padrões de uso e comportamento acabaram aproximando esses aplicativos dentro da própria loja da Apple.
Pressão do governo brasileiro aumenta
A descoberta acontece justamente quando o governo brasileiro intensifica a fiscalização sobre aplicativos de apostas.
No início desta semana, o Ministério da Justiça deu cinco dias úteis para que Apple e Google expliquem como identificam aplicativos que escondem funções de apostas após serem aprovados, de que forma verificam se os operadores possuem autorização federal e quais mecanismos utilizam para impedir o acesso de menores de idade.
As cobranças fazem parte de uma fiscalização mais ampla sobre o cumprimento das regras brasileiras relacionadas às apostas online e à proteção de crianças e adolescentes.
Mais um desafio para a reputação da App Store
O caso mostra que, mesmo com um dos processos de revisão mais rígidos do mercado, criminosos continuam encontrando maneiras de explorar brechas.
O uso de aplicativos que alteram seu comportamento conforme a localização do usuário representa um desafio complexo para qualquer loja de aplicativos, principalmente quando essas mudanças acontecem somente depois da aprovação.
Até o momento da publicação da investigação, a Apple ainda não havia comentado oficialmente o caso.


É a nova guerra do ópio, digital.