Opinião

[opinião] Retirada da entrada de fone de ouvido: atraso ou evolução?

Uma das coisas que mais se falou sobre o novo iPhone 7 foi o fato dele vir sem um conector para fones de ouvido, algo que existe em praticamente todos os smartphones e que vinha no celular da Apple desde a primeira geração.

Claro que não existe novo iPhone sem nova polêmica, e gostaria de colocar aqui algumas opiniões minhas a respeito desta decisão que divide opiniões.


Na apresentação das novidades, durante o evento do dia 7, Phil Schiller foi bem longo no discurso sobre a retirada do clássico conector. Ele citou a palavra “coragem” para definir a decisão da empresa, deixando claro que eles têm plena consciência de quão polêmica ela é.

Os que defendem adoram citar exemplos antigos, como a eliminação do drive de disquete no iMac de 1998. Aliás, neste mesmo iMac a Apple introduzia ao mundo um novo conector, que raros computadores no mundo tinham a coragem de adotar: um tal de “USB“. Isso mesmo, o USB que hoje você usa para quase tudo, foi popularizado pela Apple.

iMac G3 1998

Mas voltemos ao disquete. Na época, foi uma decisão que muitos riram. “Como assim, um computador sem disquete? A Apple pirou de vez“. Eu fui usuário do primeiro iMac e confesso que foi uma época bem difícil. Lembro que quando eu precisava entregar algum trabalho para gráficas, elas basicamente trabalhavam com disquete, o que me deixava em uma situação complicada. Em uma época que pendrives não eram populares, a solução era gravar a mídia em um CD ou transferir para um PC que tivesse disquetes. Demorou para o mundo se adaptar à nova era, coisa que aconteceu pouco a pouco.

No final dos anos 90, o disquete era uma das últimas mídias magnéticas ainda em uso. Isso porque nenhum fabricante de PC tinha coragem de se livrar dela, justamente porque sabia que seria muito criticado. Em um mercado disputado, críticas do tipo poderiam ser mortais, então era “mais fácil” esperar que os próprios usuários desistissem por eles mesmos do disquete, coisa que poderia demorar 5, 10, 15 anos. Se a Apple (e sobretudo Steve Jobs, que estava voltando à empresa) não tivesse assumido os riscos e tido a coragem de ir contra a corrente, eliminando o drive de disquete, é muito provável que esta mídia teria durado ainda bastante tempo, mesmo com todos os defeitos que tinha.

Para quem não conheceu, o disquete era uma mídia defasada, com pouca capacidade de armazenamento e bem propícia a falhas físicas, que geralmente faziam você perder o que estava gravado. Bastava esquecer 15 minutos dentro do carro abafado, sentar sem querer em cima ou passar perto de algum campo magnético, que já era possível dar “falhas de leitura”. Por isso mesmo, foi uma incrível coragem da Apple a atitude de acelerar a morte desta mídia, em uma época que Jobs estava jogando o “tudo ou nada” para tentar fazer a empresa sair da falência.

Plug centenário

A grande diferença entre o disquete e o conector P2 de áudio é que, ao contrário do primeiro, o segundo não está defasado e nem apresenta falhas em seu funcionamento. Este plug existe há mais de 100 anos, mas ainda oferece 100% de funcionalidade, com a vantagem de ter se tornado um padrão na indústria e todos os dispositivos sonoros oferecerem suporte a ele. Por isso que a sua falta no iPhone mexeu e ainda mexerá com muita gente, nos próximos anos.

Mas afinal, porque raios a Apple tomou esta decisão?

Possíveis motivos

A Apple falhou ao não apresentar fortes motivos ou até mesmo vantagens na retirada do plug P2 do novo iPhone (coisa que Steve Jobs sempre fazia). Disse apenas que estava retirando o plug, e que isso era um ato de “coragem”, sem especificar como isso pode melhorar a indústria. Mas se pensarmos um pouco, podemos imaginar alguns motivos.

A primeira razão que me veio à cabeça, ainda durante a apresentação do dia 7, foi a necessidade de fazer um aparelho sem orifícios para a água. E nesse sentido, o buraco do fone de ouvido não foi a única mudança: eles mudaram o botão frontal, que deixou de ser um real botão para integrar-se à tela. Até a entrada para o cartão-SIM (chip da operadora) é emborrachado nas extremidades para evitar passagem de líquidos. Então, se levarmos isso em consideração, retirar os fones foi uma maneira de deixar o aparelho o mais impermeável possível (apesar da concorrência também ter aparelhos resistentes à água e manterem os fones).

Outra razão (e esta foi comentada pelo Schiller no palco) é a necessidade de conseguir mais espaço interno dentro do aparelho. Logo que os primeiros boatos começaram, ainda no ano passado, nós já expusemos nossa opinião aqui a respeito disso. A Apple até chegou a estudar maneiras de criar um plug cortado, que permitiria fazer um aparelho mais fino ainda, mas nesse caso ela teria que nos empurrar mais um padrão proprietário diferente, que funcionaria só nos dispositivos da maçã. Mais fácil eliminar de vez o plug e se livrar do problema, ganhando um espaço extra.

patente Jack

Analisando friamente a questão, eu acredito que a longo prazo seja uma evolução. Afinal, o futuro caminha para um mundo sem fios e a transição vai ter que começar mais cedo ou mais tarde. Claro que essa transição é traumática, pois mexe com o status quo e nossa zona de conforto e, por isso mesmo, ainda soltaremos alguns palavrões até nos adaptarmos completamente. O mundo hoje não está preparado para o fim do plug de fone de ouvido, assim como também não está preparado para um computador com apenas uma única entrada USB (e do tipo C, ainda por cima). E como não estava preparado para um computador sem drive de disquetes em 1998.

Mas daqui 10 anos, lembraremos dessa história e provavelmente acharemos graça de como nos preocupamos tanto em nos desvencilharmos dos fios. Como as duas crianças no bar do filme De Volta para o Futuro II, que desdenharam um videogame dos anos 80 porque “tinha que usar as mãos“.

De Volta para o Futuro

Se você não quiser sofrer durante esta transição, tem opção de não passar imediatamente para o iPhone 7 e continuar usando dispositivos que mantém o conector jack, como o iPhone SE e o 6s, que ainda são ótimos aparelhos. E se estiver procurando sugestões de bons fones de ouvido com fios, a BDI Store tem. 😉

Conteúdo original © Blog do iPhone

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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