A Retransmissão Privada do iCloud (iCloud Private Relay) é um dos principais recursos de privacidade oferecidos pela Apple aos assinantes do iCloud+. Seu objetivo é impedir que sites e provedores de internet consigam identificar simultaneamente quem é o usuário e quais páginas ele está acessando. Na prática, o serviço mascara o endereço IP real durante a navegação no Safari, tornando o rastreamento muito mais difícil.
Inclusive, atualmente a Apple está fazendo uma campanha publicitária no Brasil abordando justamente este recurso e promovendo o Safari como um ótimo protetor da privacidade do usuário.
Mas justamente essa vantagem pode estar sendo desmontada por certos agentes maliciosos.
Uma nova pesquisa realizada pelos especialistas em segurança Tommy Mysk e Talal Haj Bakry revela que esse mecanismo de proteção pode ser contornado em determinadas situações.
Segundo eles, um site malicioso pode descobrir o endereço IP verdadeiro do visitante mesmo com a Retransmissão Privada ativada.
Como a Retransmissão Privada funciona
Quando o recurso está habilitado, o tráfego do Safari passa por dois servidores diferentes antes de chegar ao site desejado.
O primeiro servidor, operado pela Apple, conhece o endereço IP do usuário, mas não sabe qual site está sendo acessado.
O segundo servidor conhece o destino da conexão, mas recebe apenas um endereço IP temporário, sem acesso ao IP original do usuário.
Esse modelo foi criado justamente para impedir que qualquer entidade tenha acesso às duas informações ao mesmo tempo. A Apple descreve essa arquitetura como uma forma de proteger a identidade e o histórico de navegação dos usuários.
Onde está a falha
Os pesquisadores descobriram que alguns componentes do WebKit, o motor utilizado por todos os navegadores no iPhone e no iPad, realizam conexões fora do caminho protegido pelo Private Relay.
O caso mais preocupante envolve as passkeys, a tecnologia desenvolvida para substituir senhas tradicionais.
Durante determinadas etapas do processo de autenticação com passkeys, a comunicação é iniciada por um serviço do próprio sistema operacional e não pelo Safari.
Como consequência, essa requisição ignora a Retransmissão Privada e utiliza a conexão normal da internet.
Na prática, isso significa que um site capaz de explorar esse comportamento pode receber o endereço IP real do visitante.
Segundo os pesquisadores, nem mesmo é necessário que o usuário conclua um login com passkey.
Basta que o site apresente suporte ao recurso, ou até mesmo finja oferecer esse suporte, para provocar a requisição que revela o IP verdadeiro.
O problema vai além do Safari
Como todos os navegadores para iPhone e iPad utilizam obrigatoriamente o WebKit, a vulnerabilidade não afeta apenas o Safari.
Chrome, Firefox, Edge e outros navegadores disponíveis na App Store também dependem do mesmo motor de renderização e, portanto, podem apresentar o mesmo comportamento quando a Retransmissão Privada está ativa.
Isso amplia significativamente o alcance da descoberta.
OnionBrowser também foi afetado
A pesquisa também identificou impactos no OnionBrowser, navegador para iOS que utiliza a rede Tor para aumentar o anonimato do usuário.
Segundo os pesquisadores, algumas das mesmas requisições conseguem escapar da camada de proteção, permitindo que o endereço IP verdadeiro seja exposto.
É importante destacar que isso não afeta o navegador Tor oficial para computadores, já que ele utiliza uma arquitetura completamente diferente.
Isso significa que a Retransmissão Privada deixou de funcionar?
Não.
A descoberta não indica que todo o tráfego protegido pela Retransmissão Privada esteja vulnerável.
Na maior parte da navegação, o recurso continua ocultando corretamente o endereço IP do usuário.
O problema aparece apenas em situações específicas envolvendo determinados recursos do WebKit, especialmente relacionados às passkeys e outros serviços que realizam conexões diretamente pelo sistema operacional.
Ainda assim, trata-se de uma falha relevante, porque um site malicioso pode explorar esse comportamento sem que o usuário perceba.
Até o momento, a Apple ainda não anunciou uma correção pública para a vulnerabilidade.
Os pesquisadores divulgaram a descoberta para alertar a comunidade de segurança e demonstraram o funcionamento da técnica em um site de testes criado especificamente para verificar se o endereço IP real está sendo exposto.
Como o problema está relacionado ao funcionamento interno do WebKit e dos serviços de autenticação do sistema, é provável que uma eventual correção dependa de uma atualização do iOS, iPadOS e macOS.
Eu preciso me preocupar?
Para a maioria das pessoas, não há motivo para pânico.
A vulnerabilidade não permite invadir o iPhone, roubar arquivos ou assumir o controle da conta da Apple.
O que ela faz é reduzir uma das principais garantias de privacidade oferecidas pela Retransmissão Privada, permitindo que um site especialmente preparado descubra o endereço IP verdadeiro do visitante.
Para usuários que dependem do anonimato, como jornalistas, pesquisadores ou pessoas que utilizam ferramentas de proteção de identidade, essa limitação pode ser mais significativa.
Enquanto a Apple não libera uma atualização, a Retransmissão Privada continua oferecendo uma camada importante de privacidade para a navegação no Safari, mas a nova pesquisa mostra que ele não é uma solução infalível e que ainda existem situações em que o endereço IP real pode escapar da proteção.

