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Opinião: Por que os brasileiros não gostam de pagar por aplicativos?

App Store

Está semana que passou, aconteceu um lançamento muito esperado: o pacote Microsoft Office para iPad. O aplicativo possui a qualidade e beleza que ele merece, mas muitos usuários o desqualificaram pelo simples fato de ser preciso pagar uma assinatura mensal para usá-lo. E isso é só um exemplo de como tratamos os aplicativos que são cobrados.

Qual a razão dos brasileiros desqualificarem um produto só por ele ser pago?

História da App Store

Nos anos em que os computadores dominaram a vida digital, somente as grandes empresas de software conseguiam distribuir e vender mundialmente seus programas, que custavam dezenas (e por vezes centenas) de dólares para o consumidor final. Pequenos programadores tinham uma abrangência muito pequena, muitas vezes se limitando a nichos ou ao mercado local.

A App Store, em 2008, mudou radicalmente isto. A grande revolução feita por ela foi permitir que pessoas comuns criassem e publicassem seus próprios aplicativos, sem a necessidade de pertencer à grandes corporações. Hoje, até mesmo um menino de 12 anos pode criar seus apps e vendê-los no mundo inteiro, de forma MUITO fácil. A Apple se preocupa com servidores, configurações, cobrança em moeda local e pagamento. O desenvolvedor só precisa se preocupar com o próprio app, que pode ser feito com ferramentas disponibilizados pela Apple que facilitam ainda mais a criação.

Com o enxugamento da estrutura, aliado à uma maior distribuição, é possível diminuir muito o preço, o que permitiu que diversos aplicativos fossem vendidos por $0,99. Não há mágicas aqui: quanto mais se vende, mais o retorno paga os custos da produção. Esta fórmula dos 0,99 foi usada pela própria Apple para vender música digital na iTunes Store, o que salvou a indústria fonográfica nos anos 2000.

Tudo é lindo na teoria, mas o que acontece quando as vendas não são suficientes para pagar os custos mensais do app?

O lado do desenvolvedor

Conforme discutimos na edição 2 da Revista iThing (download gratuito), esta cultura do 0,99 acabou virando uma “ditadura”, uma imposição do mercado. Qualquer app que custe mais do que isso acaba sendo considerado “caro” pelo usuário.

Mas se pensarmos de maneira prática, criar um app tem seus custos. Em uma empresa de software, há salários, aluguel, licenças e taxas a pagar. Já para um desenvolvedor individual, o custo é menor, mas ainda existe: o tempo que o desenvolvedor dispensa à criação e elaboração de sua ideia, o tempo que ele dedica a aprender programação e pesquisar as melhores referências, além de custos práticos como conta de luz, água, comida e taxas diversas (como a anuidade de US$99 da Apple). No mundo em que vivemos, é muito difícil sobreviver sem um emprego fixo, e se quisermos empenhar nosso tempo em algo que achamos legal, isso tem que dar um retorno financeiro mínimo, para que não sejamos obrigados a largar tudo.

Você, que está lendo este texto: se imagina fazendo algo bem legal, mas sendo obrigado a pagar seus gastos com o próprio bolso, sem ninguém lhe dar nada em troca? Em ações de caridade, isso é louvável. Mas a App Store (ou qualquer outra loja de aplicativos) não é uma instituição de caridade.

Um desenvolvedor que não consegue pagar as próprias contas com seus aplicativos, acaba desistindo e fazendo outra coisa na vida, e é o que muitos brasileiros já fizeram. Se vários na App Store seguirem este caminho, qual será o resultado? Ficaremos cada vez com menos opções legais na loja.

Ou seja: cobrar por aplicativos não é algo ilógico ou “desonesto”, muito pelo contrário. É uma maneira sustentável de oferecer um produto ou serviço para os usuários.

O pensamento brasileiro

Porém, o que se vê em grande parte dos usuários brasileiros é uma aversão a pagar por alguma coisa, mesmo que ela traga um conteúdo de qualidade. Qualquer aplicativo que custe algo já é bombardeado de reclamações do tipo “Não vou pagar por algo que pode ser encontrado de graça na internet” ou “Malandro! Quer ganhar dinheiro às nossas custas“. Ou pior: “Era muito bom quando era de graça, mas agora que ficou pago, é uma droga“.

[É bom destacar que felizmente não são todos os brasileiros que pensam assim].

É claro que há aplicativos que simplesmente não valem o preço que cobram, mas este tipo de usuário não parece fazer distinção quanto à qualidade e sim pelo valor monetário, sem se dar conta que este tipo de pensamento [mark]só favorece os aplicativos ruins[/mark], ao fazer com que os bons deixem de evoluir por falta de recursos.

A impressão que dá é que, no Brasil, a palavra lucro é um pecado imperdoável. Isso é bem cultural e talvez seja resultado da divisão hereditária de classes que existe há séculos no país. Lucro é “coisa de rico“, então quem quer tê-lo na verdade “quer se aproveitar da classe dominada“.

Também tem o fato de sermos enganados e mal-tratados a todo o momento por serviços no país, como operadoras, bancos e golpes na internet, o que nos faz sempre ficarmos com um pé atrás sobre tudo e todos. E aí, quando temos que “investir” em algo para tirarmos proveito, surge a eterna desconfiança. Provavelmente venha daí o sentimento de “estarmos sendo enganados” ao precisar pagar por algo.

Mas este tipo de pensamento acaba nos atrasando. Não investimos em bons aplicativos e, consequentemente, eles acabam não recebendo apoio suficiente para serem continuados ou até melhorados. Cada vez menos desenvolvedores brasileiros investem na plataforma e com isso, a tendência é termos cada vez menos opções nacionais boas na loja.

Bom senso

É importante deixar claro que não estamos dizendo que todos os aplicativos disponíveis devam ser pagos. O que queremos passar com este texto é que nossa cultura de “não pagar por nada” precisa mudar e devemos começar a avaliar os apps considerando também os benefícios que ele nos trará, que deve ser proporcional ao preço. Por exemplo, para alguém que raramente visualiza tabelas do Excel no iPad, talvez não valha realmente a pena pagar uma assinatura mensal por isso. Já quem trabalha muito com tabelas e ganha muito ao ter a praticidade de acessar suas planilhas no tablet, vai achar o preço muito em conta, principalmente se já usa o Office no computador. O valor de US$49,99 por um aplicativo pode parecer uma fortuna para os padrões da loja, mas muitos usuários que pagaram isso pelo TomTom o usam tanto que já acham que o valor “se pagou” com tantas vantagens que ele gerou.

Temos que abrir nossa mente e estarmos preparados a pagar por qualidade, se aquilo vai nos trazer um benefício real no nosso dia a dia. Isso só nos fará crescer como consumidores, o que atrairá cada vez mais os olhares de gente disposta a oferecer bons produtos e serviços.

Comece por você: pague sem culpa por aplicativos que você considerar bons. Todos nós saímos ganhando com isso. 😉

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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