O iPhone Duo chegou às lojas em 23 de outubro cercado de expectativas. Depois de anos acompanhando a evolução dos celulares dobráveis da concorrência, a Apple finalmente apresentou sua própria solução, prometendo uma estrutura resistente, uma dobradiça de precisão e uma tela interna cuja dobra é praticamente imperceptível.
Mas bastaram algumas horas para começarem a aparecer os primeiros relatos de problemas. Telas quebradas, linhas luminosas no painel e dobradiças que deixam de funcionar normalmente levantaram dúvidas sobre a durabilidade do aparelho.
E isso, claro, provocou indignação entre os que compraram o aparelho com defeito. Afinal, ninguém espera enfrentar problemas dessa gravidade logo nas primeiras horas de uso, muito menos em um produto que custa tão caro, tanto para os padrões americanos quanto para os brasileiros.
Para aqueles que não gostam de rasgar dinheiro não têm dinheiro sobrando para comprar um (e eu me incluo neste grupo), resta a surpresa de constatar que a Apple, que sempre buscou a perfeição, lançou um produto sensível a falhas.
Mas nos quase 20 anos deste blog, a gente já aprendeu a lidar com as tradicionais polêmicas que sempre surgem a cada novo modelo de iPhone. E a entender que problemas que acontecem com dezenas ou talvez poucas centenas de usuários não significa que os outros milhares e milhares de compradores terão o mesmo problema.
Então, vamos entender o que realmente está acontecendo, separar os fatos dos exageros e, de quebra, jogar um pouco de água fria na empolgação de alguns haters que parecem estar comemorando (como sempre) os problemas da Apple.
Telas quebradas e problemas na dobradiça
O caso mais preocupante envolve a tela interna do iPhone Duo.
Diversos compradores relataram que, ao abrir o aparelho, sentiram uma resistência incomum na dobradiça, seguida de um estalo.
Em alguns casos, surgiram imediatamente linhas verdes ou brancas, rachaduras e regiões que deixaram de responder ao toque. E o estranho é que em todos os casos, isso acontecia no mesmo lugar da tela.

Alguns desses problemas apareceram com poucas horas de utilização, sem relatos de quedas ou impactos. A Bloomberg conseguiu confirmar independentemente mais de seis casos, examinando fotografias e registros de atendimento.
Diante da repercussão, a Apple reconheceu oficialmente o problema. Segundo a empresa, um pequeno número de unidades apresenta defeitos na tela interna, e os consumidores afetados devem procurar o suporte para solicitar a substituição.
Até agora, porém, a Apple não revelou quantos aparelhos foram afetados nem identificou publicamente a causa da falha.
O pessoal da iFixit, especializada em desmontar e analisar dispositivos eletrônicos, levantou uma hipótese interessante.
O complexo mecanismo da dobradiça possui uma barra responsável por sustentar a região central da tela. Se essa peça não se movimentar corretamente durante o fechamento, poderá exercer pressão excessiva sobre o painel flexível.
A explicação parece compatível com os danos observados, mas ainda não foi confirmada.

Uma tela delicada e uma dobradiça vulnerável à poeira
Outras preocupações surgiram com os primeiros testes de resistência.
O canal JerryRigEverything submeteu o iPhone Duo a uma sequência de experimentos envolvendo arranhões, poeira e pressão sobre a estrutura.
A tela externa demonstrou boa resistência, enquanto a interna apresentou riscos com muito mais facilidade.
Isso acontece porque os painéis dobráveis precisam utilizar materiais flexíveis, naturalmente mais delicados do que o vidro rígido dos smartphones convencionais.
A situação ficou mais preocupante quando partículas de poeira e areia penetraram no mecanismo da dobradiça, prejudicando seu fechamento.
Posteriormente, durante um teste de flexão, a tela interna apresentou uma linha verde permanente e acabou deixando de responder ao toque.
Mas lembre-se que esses experimentos submetem o aparelho a condições extremas, que não representam necessariamente o uso cotidiano. Ainda assim, ajudam a identificar pontos vulneráveis do projeto.
Outra questão envolve a região central da tela. Um vídeo divulgado na China mostrou que ela pode ceder ligeiramente quando pressionada, chegando a apresentar pequenas ondulações temporárias.
Isso não significa necessariamente um defeito.
A flexibilidade faz parte da construção desse tipo de painel, e ainda não há evidências de que esse comportamento esteja relacionado às quebras relatadas.
A certificação IP68 também entrou na discussão
A Apple anunciou que o iPhone Duo possui certificação IP68, com resistência à poeira e à imersão em água a até seis metros de profundidade durante 30 minutos, em condições controladas.
Entretanto, os testes mostraram que partículas podem atingir componentes móveis da dobradiça.
Isso significa que a certificação é falsa?
Não necessariamente.
A própria iFixit esclareceu que seu experimento com pó fluorescente não equivale a um teste formal de certificação IP. A maior parte das partículas foi bloqueada pelas vedações que protegem os componentes eletrônicos, embora uma quantidade tenha alcançado o mecanismo da dobradiça.
Curiosamente, nesse mesmo experimento, o iPhone Duo apresentou menor entrada de poeira do que o Galaxy Z Fold8 e o Pixel 11 Pro Fold, submetidos anteriormente a testes semelhantes.
Portanto, existe uma diferença entre questionar a resistência prática de uma dobradiça e afirmar que a certificação anunciada pela fabricante é fraudulenta.
Claro que a vulnerabilidade à poeira merece atenção, mas isso não acontece só com o Duo.
E a Samsung?
Não quero cair na armadilha de me valer da mesma técnica usada em discussões políticas no Brasil, quando se responde uma crítica apenas apontando falhas no campo oposto (clássico exemplo de whataboutism).
Mas é um fato de que outras concorrentes também enfrentam problemas técnicos com dispositivos dobráveis.
A grande questão é que a Apple decidiu se aventurar em um produto que tem tudo para dar problema: tela que dobra, engenharia de dobradiças, display de vidro na frente e atrás… Não é de se estranhar a empresa ter demorado tanto para entrar neste mercado.
Celulares dobráveis são uma bomba relógio prontos para darem problema. Pelo menos no nível atual da tecnologia.
Em 2019, a Samsung precisou adiar o lançamento do primeiro Galaxy Fold depois que unidades enviadas à imprensa apresentaram falhas graves na tela.
Alguns aparelhos pararam de funcionar após a remoção de uma camada protetora que parecia uma película convencional. Outros sofreram danos relacionados à entrada de partículas na região da dobradiça.
A Google também passou por uma situação semelhante. Em 2023, um exemplar do primeiro Pixel Fold utilizado pelo site Ars Technica teve sua tela interna inutilizada depois de apenas quatro dias de uso leve.
A análise apontou que uma partícula muito pequena provavelmente havia atingido uma região vulnerável do painel.
Esses casos não tornam aceitável o que está acontecendo com o iPhone Duo. Mas demonstram que a complexidade dos dobráveis representa um desafio para diferentes fabricantes.
E não se trata apenas de problemas das primeiras gerações.
Nos testes de durabilidade realizados em 2026, o Galaxy Z Fold8 Ultra apresentou falhas na tela interna, enquanto o Pixel 11 Pro Fold sofreu danos estruturais em um experimento semelhante.
Isso não significa que uma fabricante apresenta uma taxa de defeitos maior que outra. Mas sugere que a tecnologia de dobráveis ainda está em desenvolvimento.
Não espere que o Duo seja perfeito. Nenhum dispositivo é.
E é sempre bom enfatizar bem: defeitos em algumas dezenas de aparelhos não significa que você terá esse problema no seu aparelho. Proporcionalmente, isso acontece com uma pequena parte dos usuários.
E caso você seja um dos raros azarados a ter este problema da tela, a Apple troca gratuitamente o aparelho, visto que é um problema que ela admite existir.
A Apple assumiu um risco ao entrar nesse mercado
Um smartphone comum já reúne diversos componentes delicados.
Um dobrável acrescenta uma segunda tela, um painel flexível e uma dobradiça com várias peças móveis que precisam trabalhar juntas milhares de vezes.
É uma construção mecanicamente mais complexa, com mais pontos potenciais de falha.
Então, se você quer muito ter um telefone dobrável, saiba que há riscos embutidos.
A Apple conhecia esses desafios quando decidiu entrar nesse mercado. Afinal, teve anos para acompanhar os erros e acertos das concorrentes.
Por isso, as falhas do iPhone Duo provocam uma decepção compreensível.
A empresa afirmou durante o lançamento que havia desenvolvido uma estrutura preparada para resistir ao uso diário, destacando sua dobradiça de precisão e materiais exclusivos.
Era razoável esperar que a experiência acumulada pela indústria ajudasse a evitar determinados problemas.
Ao mesmo tempo, é injusto ignorar os avanços que a Apple efetivamente conseguiu.
Na avaliação da iFixit, o Duo recebeu nota provisória de 5 em 10 em reparabilidade, a melhor classificação já concedida pela organização a um smartphone dobrável. A facilidade de remover as baterias e acessar determinados componentes contribuiu para esse resultado.
Naturalmente, uma nota 5 ainda está longe do ideal. A substituição da tela interna continua complexa e cara.
As falhas registradas são preocupantes, especialmente quando surgem em aparelhos novos, e a fabricante precisa investigar suas causas, corrigir eventuais problemas de fabricação e oferecer atendimento adequado aos consumidores.
Mas também é precipitado afirmar que o projeto inteiro fracassou.
Até o momento, não existem dados públicos suficientes para determinar a proporção de unidades defeituosas ou avaliar a durabilidade do Duo depois de meses e anos de utilização.
Da mesma forma, não faz sentido exigir da Apple uma perfeição que nenhuma outra fabricante conseguiu alcançar, ignorando problemas equivalentes nos produtos concorrentes.
Claro que, pelo preço, ninguém quer ter dor de cabeça ao comprar um dobrável da Apple. Eu mesmo ficaria muito P se acontecesse comigo.
Talvez seja por isso que eu nem cogito comprar um celular tão caro, pois sei que qualquer problema que acontecer com ele (como por exemplo, simplesmente cair no chão e quebrar) jogaria no lixo boa parte da grana que gastei com ele.
Ele é lindo, sensacional, apaixonante, faz todos em volta se impressionarem com você… Mas não acho uma maneira inteligente de gastar meu suado dinheirinho.
A Apple decidiu entrar em um mercado que já conhecia os riscos das telas dobráveis. Agora, terá de demonstrar que consegue lidar com esses riscos também depois da venda.

