Um acessório criado para impedir que ladrões encontrem AirTags escondidos em objetos roubados acabou provocando uma grande controvérsia nos Estados Unidos. Isso porque a mesma tecnologia também poderia facilitar algo bem mais preocupante: o rastreamento de pessoas sem que elas soubessem.
A fabricante Elevation Lab, especializada em acessórios para produtos da Apple, decidiu retirar do mercado o chamado AirTag Silencer, depois de receber críticas sobre os riscos à privacidade e à segurança pessoal.
A empresa também publicou um pedido de desculpas, reconhecendo que não havia considerado adequadamente as possíveis consequências do produto.
Um AirTag que nunca mais faz barulho
Lançado em 30 de setembro, o AirTag Silencer tinha uma proposta bastante específica: permitir que o usuário desativasse permanentemente o alto-falante de um AirTag, sem prejudicar as demais funções do dispositivo.
Ao contrário de uma simples capa que abafa o som, o acessório provocava uma alteração física no rastreador, danificando o mecanismo responsável por emitir os alertas sonoros.
O resultado era um AirTag que continuava funcionando normalmente com a rede Buscar da Apple, mas que não conseguia mais emitir sons.
Segundo a Elevation Lab, a ideia surgiu da necessidade de proteger objetos de valor, especialmente bicicletas.
Imagine que alguém roube uma bicicleta equipada com um AirTag escondido. Se o dispositivo começar a emitir sons, o ladrão poderá encontrá-lo, removê-lo e impedir que o proprietário continue acompanhando sua localização.
Com o alto-falante desativado, o AirTag permaneceria escondido por mais tempo, aumentando as possibilidades de recuperação do objeto.
O argumento parece razoável à primeira vista. Mas existe um problema bastante sério nessa lógica.
O mesmo recurso poderia facilitar perseguições
Desde seu lançamento, em 2021, o AirTag enfrenta críticas relacionadas à possibilidade de ser utilizado para monitorar pessoas sem consentimento.
É justamente por isso que a Apple implementou diferentes mecanismos de proteção contra rastreamento indesejado.
Um deles é o alerta sonoro. Quando um AirTag permanece separado de seu proprietário por determinado período, ele pode emitir sons ao ser movimentado, permitindo que alguém perceba a presença de um rastreador desconhecido.
Essa proteção é especialmente importante quando a pessoa não recebe notificações de rastreamento no celular.
Ao eliminar permanentemente o alto-falante, o AirTag Silencer retirava uma dessas camadas de segurança.
Isso poderia beneficiar alguém que escondesse deliberadamente um rastreador no carro, na bolsa ou em algum objeto pessoal de outra pessoa.
O dispositivo continuaria transmitindo sua localização, mas a vítima perderia a possibilidade de descobri-lo pelo som.
É importante esclarecer que a modificação não desativava os alertas enviados aos smartphones. iPhones e aparelhos Android compatíveis ainda podem identificar rastreadores desconhecidos que estejam acompanhando seus usuários.
O problema é que esses alertas dependem de condições específicas e não substituem completamente o aviso sonoro emitido pelo próprio AirTag.
Fabricante reconheceu o problema
Após as críticas, a Elevation Lab anunciou, em 13 de outubro, que não venderia mais o produto.
Em uma breve publicação intitulada An apology (Um pedido de desculpas), a fabricante explicou que havia desenvolvido o acessório pensando em suas próprias bicicletas, algumas delas, segundo a empresa, mais valiosas que seus carros.
Entretanto, reconheceu que a ferramenta também poderia ajudar pessoas mal-intencionadas a rastrear vítimas que não recebessem notificações no celular.
Além de retirar o AirTag Silencer do mercado, a Elevation Lab afirmou que pretende utilizar sua patente para tentar impedir que outras empresas fabriquem acessórios semelhantes.
Isso não significa, evidentemente, que modificações desse tipo deixarão de existir. Mas a decisão representa um reconhecimento importante de que nem toda solução tecnicamente possível deveria ser transformada em produto comercial.

