Está semana, o Spotify resolveu fazer um joguinho de teatro para tentar mudar a situação atual do mercado de serviços de streaming musical, principalmente em relação ao Apple Music, que existe há somente um ano, mas que aparentemente já está incomodando. Ele acusou a Apple de barrar a atualização do seu aplicativo na App Store, de maneira anti-competitiva.

Só que para isso, forçaram a situação quebrando eles mesmos as regras da App Store.

Antes de continuar, um importante adendo: eu sou usuário do Spotify e gosto muito dele. Este artigo não tem a intenção de defender cegamente a Apple, nem de dizer que só ela presta e o resto não. Por isso, se você se sentiu agredido com o título antes mesmo de ler o resto do artigo, desarme-se. 😉

Entenda a situação

Na quinta-feira (30), diversos jornais e sites noticiaram uma carta que os advogados do Spotify mandaram à Apple, com cópia para a imprensa e o Congresso americano. Nela, eles reclamam que a maçã teria impedido de propósito que o Spotify atualizasse seu aplicativo com “mudanças importantes“, e isso estaria prejudicando financeiramente o modelo de negócios deles.

Os advogados foram bem agressivos na carta. Disseram que a Apple deliberadamente “estaria prejudicando a chegada de uma nova versão do Spotify porque teme as consequências que a novidade poderia causar ao Apple Music“. Alegam também que a maçã “usa a App Store como uma arma para prejudicar competidores”, dizendo que isso vai contra as leis dos EUA e Europa.

O que realmente aconteceu

A App Store tem uma regra específica para assinaturas em aplicativos, que já existe há mais de 5 anos: se o app quiser oferecer assinaturas, ele pode, desde que obrigatoriamente ofereça para o usuário a possibilidade de assinar também diretamente no aplicativo, sem ter que sair dele.

O Spotify montou propositadamente um circo, para chamar a atenção de todos. Mesmo conhecendo essa regra (que existe há mais de 5 anos), eles enviaram para a App Store uma versão sem a possibilidade de assinar o serviço pelo aplicativo, obrigando o usuário a sair do app e assinar pelo site. Aí aguardaram a Apple barrar a atualização para então reclamar na imprensa e fazer todo o escarcéu. Tudo planejado.

Claro que, na regra da Apple, há uma pegadinha: assinando pelo aplicativo, o pagamento é feito pela loja da maçã, que fica com uma comissão de 30%. Ou seja, o Spotify recebe um terço a menos quando o usuário faz a assinatura pelo app do que diretamente pelo próprio site.

Só que esta é uma discussão diferente. Há anos que se discute se é justo ou não este sistema da Apple. Isso é assim muito antes do Apple Music, que existe há somente um ano. O Spotify vir dizer que a Apple está fazendo isso porque “teme a concorrência ao Apple Music” é apelar para mimimi barato com o intuito de chamar a atenção da mídia.

Spotify

Repito, essas regras não são novas e existem há mais de 5 anos, e talvez seja válido questioná-las, pois beneficiam muito a Apple em vários aspectos (apesar dela afirmar que faz isso para que o usuário tenha sempre uma opção de assinar serviços sem precisar sair do app, o que é mais confortável para ele). Porém, a forma que o Spotify resolveu levantar a questão foi apelativa e quase infantil, forjando uma situação para colocar a Apple como a vilã que “barra aplicativos por medo da concorrência“.

Isso vai resolver a situação? Provavelmente não, pois não se cria espaço para diálogo. A Apple vai se sentir agredida e injustiçada por causa do circo armado e não se mostrará disposta a mudar. A mídia vai dar atenção ao caso somente por algum tempo, depois vai esquecer, como sempre fez em outras situações semelhantes. E o Spotify, com tudo isso, vai ser obrigado a devolver a opção de assinaturas internas caso queira que a atualização de seu app seja aprovada, pois eles não são mais especiais que os outros milhares de desenvolvedores que seguem as regras da loja.

Situação do mercado

Em números absolutos, o Spotify ainda está na frente. Estima-se que possua mais de 100 milhões de usuários ativos, mas apenas 30% deles são pagantes. O resto usa o serviço de graça, aturando incômodos anúncios durante a escuta.

O Apple Music tem 15 milhões de assinantes pagantes, o que é metade do que tem o Spotify. Porém, o que impressiona é a velocidade que ele chegou a esse número: em apenas 1 ano atingiu o que o Spotify demorou 6 para conseguir.

Mercado de streaming

Talvez você se impressione com a informação que trarei agora: apesar da enorme base de usuários, o Spotify ainda não conseguiu gerar lucro até hoje. O modelo de anúncios não é suficiente para pagar os custos dos 70 milhões de usuários gratuitos, e a cada ano as contas fecham no vermelho. Ele sobrevive hoje da grana dos investidores, não do seu próprio serviço.

Um dos pioneiros do streaming de música, o Rdio, pediu falência recentemente, e estima-se que outras empresas do tipo farão o mesmo no futuro. Essa semana correu boatos de que a Apple estaria interessada em comprar o Tidal, e assim os concorrentes vão se tornando cada vez menos numerosos. Mas a culpa não é do “maquiavélico sistema de porcentagem da App Store“, como o Spotify tenta desesperadamente querer passar, mas da própria fórmula de negócios do streaming. Cada vez que um usuário escuta uma música de graça, o serviço precisa pagar uma quantia para o artista, em forma de royalties. Por isso, não tem como o Spotify dar lucro com 70% de seus usuários ouvindo música sem pagar. Se não mudar esse modelo de negócios, não existe mágica que fará dar certo. Nem mesmo armando circo na mídia para colocar a Apple de vilã da história.

Talvez, no futuro, o modelo de streaming só exista nas mãos das grandes companhias, que lucram mais como serviços e dispositivos do que com o aluguel de música, como é o caso da Apple, do Google e futuramente da Amazon. As outras menores, estão fadadas a deixarem de existir, se continuarem tentando dar soco em ponta de faca e apostar em uma fórmula que até hoje não deu certo financeiramente.