Quando eu comecei a trabalhar na área de publicidade, nos meados da década de 90, vi muitos profissionais do ramo perderem o emprego depois de anos de experiência. O motivo era claro, pelo menos para mim: a introdução do computador na publicidade, que fez desaparecer do dia para noite diversas funções que antes eram feitas manualmente. Quem não se adaptou ao computador, perdeu seu lugar no mercado.

Algo similar está acontecendo agora, com as livrarias nacionais, que querem negar o avanço tecnológico e tentam implementar, de forma burra e arcaica, uma maneira de atrasar o progresso digital. Na verdade, estão apenas adiando a própria morte.

Na semana passada, a ANL (Associação Nacional de Livrarias) divulgou uma carta aberta, onde pede que sejam tomadas providências para proteger os vendedores de livros impressos no país. Nela, é exigido que se regulamente a venda de livros digitais, nos seguintes termos (como aparecem na carta):

・Recomendamos estabelecer um intervalo de 120 dias entre o lançamento dos livros impressos no formato de papel no mercado brasileiro e sua liberação nas plataformas digitais.

Solicitamos que o desconto para revenda do livro digital para todas as livrarias e para as demais plataformas seja uniforme, possibilitando igualdade de condições para todos os canais de comercialização nesse novo suporte de leitura.

・Sugerimos que a diferença de preço a menor do livro digital para o formato impresso seja no máximo igual a 30%.

・Na hipótese de a editora ou distribuidora vender diretamente ao consumidor final, o desconto nos livros digitais não deverá exceder 5%.

Ou seja, elas querem que o livro digital não seja tão mais barato que o livro impresso, mesmo que neste não exista o custo de impressão e distribuição física, como existe no livro de papel, que já é bem caro, por sinal.

As livrarias digitais como iBookstore e Amazon são uma ameaça para as livrarias tradicionais? Sem dúvida. Mas este é o progresso e contra ele, não adianta ir contra. É inútil ficar dando murro em ponta de faca, criando regulamentos protecionistas que só atrasam o inevitável. As livrarias estão a favor dos seus próprios interesses e contra os do consumidor. E quando isso acontece, é morte na certa.

É como se os vendedores de CD fossem contra a iTunes Store facilitar a venda de música aos consumidores.

O que as livrarias tem que fazer é tomar vergonha na cara e se adaptar aos novos tempos. O livro digital é sim uma enorme facilidade, que só melhora a experiência do consumidor. Lutar contra isso é repetir a história. No final dos anos 90, a indústria musical tentou impedir o avanço tecnológico, obrigando o consumidor a comprar os já então arcaicos CDs. Com isso, nasceu o Napster e tantas outras formas de pirataria, pois não havia maneira mais fácil de adquirir legalmente suas músicas preferidas. A iTunes Store mudou a história e salvou a indústria, por apresentar um grande conforto para o consumidor.

Só queremos isto: conforto e preços justos. É tudo o que o consumidor quer para pagar feliz pelo produto. Quem lutar contra isto, estará criando um monstro.

Há muita gente que ainda prefere o cheiro do livro impresso e não troca ele por nada. O mais inteligente para as livrarias seria investir neste público cativo, dar mais atenção para ele. Mas ela, ao contrário, tenta impedir que o “novo público” (aqueles que hoje não leem livros, mas começarão a ler pela facilidade do formato digital) cresça e se desenvolva. Assim não tem como dar certo.

Livrarias, acordem. Ou vocês se adaptam aos novos tempos, ou irão agonizar até morrer. O mercado americano (que está bem mais avançado que vocês) está aí mostrando lições para quem quiser ver. Abram os olhos e aprendam enquanto é tempo. #ficadica