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Ex-funcionário desabafa: “Tim Cook transformou a Apple em uma chata empresa de operações”

É sempre complicado acreditar em tudo que ex-funcionários falam sobre seus antigos empregadores. Muitas vezes há mágoas, ressentimentos e decepções, principalmente quando são despedidos ou pedem demissão por questões pessoais. Por isso que quando Bob Burrough, ex-integrante da equipe de engenheiros da Apple, diz que a empresa perdeu seu senso inovador e se tornou uma empresa chata após a saída de Steve Jobs, a gente fica com uma pulga atrás da orelha e tenta usar filtros para tomar muito cuidado com o que podemos levar ou não em consideração.

Não sabemos as razões que levaram ele a sair da empresa, mas o que nos chama a atenção é que ele comenta algo que condiz muito com o que falamos aqui outro dia: até que ponto a rigidez de Steve Jobs não era a grande responsável pelos grandes produtos revolucionários que a empresa lançou?

Bob diz ter trabalhado na Apple por 7 anos, tanto na época de Steve Jobs quanto na de Tim Cook. Acompanhou os lançamentos do iPod, do iPhone e do iPad. E o que ele afirma é que Tim Cook faz de tudo para evitar conflitos entre as equipes, o que torna a Apple uma empresa chata e sem criatividade.

Isso tem muito a ver no que conversávamos dias atrás. Destacamos no outro artigo o quanto Steve Jobs exigia de suas equipes, para que cada um desse além do máximo do que eles acreditavam ser possível. Steve fazia questão de trabalhar com os melhores, que ele chamava de “nível A”, exigindo deles resultados acima da média.

Segundo Bob, Tim Cook é bem diferente disso, evitando ao máximo conflitos. Esta aliás foi uma das razões da demissão de um dos grandes talentos do iOS, Scott Forstall, que era conhecido por criar atritos com as equipes quando não concordava com alguma coisa. Sem Forstall na empresa, Tim Cook conseguiu paz nas equipes, que não tiveram mais conflitos. Porém, sem conflitos a empresa se tornou menos inovadora e criativa, na opinião de Bob.

Ele chegou a postar no Twitter um trecho de uma entrevista do próprio Jobs, em 1995 (ainda na NeXT), em que ele comenta sobre a importância dos conflitos em uma equipe criativa:

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Este tipo de conflito não existe na atual Apple. O próprio Tim já deixou bem claro para as suas equipes não trazerem conflitos para ele. Com isso, a impressão que dá é que Jony Ive é quem decide a direção dos produtos baseado no design, e todos os outros trabalham para transformar aquilo em um produto real. Segundo este pensamento, não haveria ninguém para dizer “não” ao Jony, resultando em algumas coisas estranhas que vimos nos últimos tempos, como a capa com bateria, a capinha furada do iPhone 5c, o mouse que não pode ser recarregado enquanto se usa e o chocante (na época) iOS 7.

É claro que precisamos diferenciar bem o que é inovação e o que é “ganhar dinheiro”. Essa nossa discussão não significa que “a Era Apple está chegando ao fim” (ah, como tem gente que aguarda há anos por isso), pois a empresa continua ganhando muito dinheiro, mais do que a maioria dos concorrentes. Os serviços hoje em dia estão cada vez mais fortes, o que faz ela faturar mesmo sem precisar lançar uma nova revolução a cada ano. A maneira da Apple sobreviver hoje é outra e como já falamos aqui, Tim Cook é um especialista em ganhar dinheiro.

O que nos deixa tristes é que aquele brilho que sempre nos fascinou está cada vez mais fraco. O foco de Jobs nunca foi o dinheiro, e sim os produtos e a mudança que eles podiam fazer em nossas vidas. E por mais que a Apple de hoje afirme continuar fazendo isso, sem uma equipe motivada e com conflitos que a desafiem a encontrar soluções diferentes do habitual, dificilmente teremos produtos que nos façam cair o queixo, como no passado.

Leia a íntegra da declaração de Bob Burrough no site da CNBC (em inglês).

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Ale Salvatori

Applemaníaco desde 1995, quando precisou aprender a usar um Mac em uma semana para conseguir um emprego em uma agência de publicidade. Acha que a Apple não é mais a mesma depois da saída do Gil Amelio.

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