Opinião

Discussão: iOS 5 traz funções que a própria Apple barrou no passado

Este artigo é quase uma continuação de outro que foi escrito aqui na terça passada (leia “iOS 5: cópia da concorrência ou evolução natural?“). Ao mesmo tempo que a apresentação do futuro iOS 5, na última segunda, deixou empolgada a maioria dos usuários, diversos questionamentos éticos ficaram evidentes: a Apple tem o direito de proibir que outros desenvolvedores tragam inovações para o iPhone, só para ela mesmo implementar depois?

Se é bem verdade que a concorrência serviu de inspiração em diversas novidades do novo sistema, é “no próprio quintal” que a polêmica promete ficar mais forte, pois algumas propostas apresentadas pela Apple nesta nova versão foram estranhamente barradas por ela mesma em aplicativos de terceiros na App Store. Concorrência desleal? Roubo de ideias?

O caso mais notório, que muitos lembraram ainda durante a apresentação da keynote de Jobs, foi a nova função que usa o botão de volume para tirar fotos. O aplicativo Camera+ foi retirado por semanas da App Store só porque tinha essa função, o que fez os seus desenvolvedores deixarem de ganhar milhares de dólares (literalmente).

É bem verdade que o aplicativo foi barrado principalmente por manter a função escondida (tipo easter egg), fazendo algo que a Apple proíbe até hoje (alterar as funções nativas dos botões do aparelho). Regras são regras. Mas proibir terminantemente e de repente aparecer com a função como um benefício do iOS, seria justo?

Outro que não está nada contente é o desenvolvedor Greg Hughes, criador do aplicativo Wi-Fi Sync (leia “Sincronização do iPhone por Wi-Fi é rejeitada pela Apple e vai parar no Cydia“). Na época ele enviou o aplicativo para a App Store, mas ele foi sumariamente barrado da loja oficial, mesmo que “tecnicamente não tenha quebrado nenhuma regra do SDK” (como admitiu o próprio engenheiro da Maçã). O app permitia a sincronização com o iTunes pelo Wi-Fi, sem precisar conectar o cabo.

Esta foi outra das novidades (muito bem-vindas) que a Apple apresentou na segunda, deixando Hughes indignado. Segundo ele, foi uma imitação descarada até mesmo no óbvio ícone (que também não é criação dele, pois une dois símbolos padrões: Wi-Fi e sincronização). Ele também reclama que a Apple o copiou até o nome, Wi-Fi Sync, mas aí já é exagero.

Mas Hughes nem pode reclamar tanto: durante um ano inteiro em que ficou disponibilizado no Cydia (loja alternativa de aplicativos para iOS), seu app vendeu mais de 50.000 cópias, ao preço de $9,99. Rendimento nada mal para um estudante.

O novo sistema de notificações não tem inspiração apenas no Android, como alguns insistem. Ele na verdade é um real “copiar/colar” do tweak MobileNotifier (leia “Apple pode estar procurando solução no jailbreak para sistema de notificações“), presente no Cydia, com alguns melhoramentos. Seria uma cópia descarada se seu desenvolvedor, Peter Hajas, não tivesse sido contratado pela Maçã para ajudar no iOS. Indiretamente, a Apple assumiu que gostou da ideia e premiou o profissional por isso.

Aliás, a Central de Notificações (janelinha que puxamos para baixo para ver todos os avisos disponíveis) também parece ser fortemente inspirado em outro conceito do jailbreak, o Element Lockscreen (leia sobre ele aqui), onde todas as notificações ficam agrupadas em uma única tela.

Como diz aquela famosa lei da física-química-jurídico-Chacrinha, “no mundo, nada se cria, tudo se transforma”. Se o iOS 5 viesse com widgets na tela de aplicativos, todos diriam que seria imitação do Android, como se tivesse sido a Google quem os criou. O Mac OS já usa widgets bem antes do sistema do robozinho nascer; quem copiou de quem mesmo?


Widgets existem no Mac desde 2005

Aliás, na época a Apple também foi acusada de copiar descaradamente os widgets de um outro programa, o Konfabulator. A diferença é que este programa foi comprado depois pelo Yahoo que, olhem só vocês, é quem fornece atualmente as informações de Tempo e Bolsa nos widgets da Apple. Ou seja, tudo em casa, diferentemente da Google que copia sem dar satisfação a ninguém. 😉

Com tudo isso, outra pergunta que não quer calar é: com todas estas adaptações oficiais, o jailbreak tem ainda futuro? Só o tempo dirá. Mas seja como for, a Apple está confirmando o que falamos aqui há dois anos: se não fosse os hackers que cutucaram a Apple de vara curta, impedindo que ela comandasse o jogo sozinha, talvez o iPhone não seria o mesmo hoje em dia.

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iLex

Robô virtual que tem como missão organizar o site e ajudar leitores. De tempos em tempos ele desvirtua e tenta fazer outras coisas, mas nada que um hard reset não resolva.

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